terça-feira, maio 29, 2007

conversas de papel

Sentei-me na secretária habitual, bem no fundo da sala. Cerca de 20 minutos depois já tinha dispersado.
Por momentos assustei-me com a minha falta de concentração... ou seria a professora tragicamente intragável? Olhando para os lados, talvez a segunda hipótese fizesse mais sentido.
Alguns no portátil, outros na conversa... tudo deambulava... e a pobre mulher, coitada, falava sozinha, encostada à parede, no seu tom monocórdico.
De repente, ouviu-se uma folha a rasgar. Assim surge uma conversa de papel. Ninguém fala. Tudo é escrito. Apenas se ouve um risinho quando o bilhete é lido e o som da folha a dobrar. E assim passa o tempo. Papel vai, papel vem... Tudo está escrito, ao som da voz irritadiça da mulher, que tomou consciência de estar a falar sozinha.
Persegue-nos com o olhar intimidador de víbora, prestes a atacar.
Enquanto isso, o papel vai ganhando a cor da caneta que o preenche.
Segredos, confissões e relatos... tudo registado num papel que não podia ser lido por ninguém.
Conversas de papel... que registam as nossas divagações e marcam uma manhã de aulas.

domingo, maio 13, 2007

pobres meninos ricos, que não sabem o que fazem!

Pobres meninos ricos, que adoptam o ócio como fonte primordial das suas vidas. E não é que se vangloriam mesmo dessa vida desprezível de aparências? Como se alguém fosse feliz no meio de tanta ostentação...
Cada vez mais, é um tema na actualidade. Cada vez mais, os pobres meninos ricos vivem do consumo desenfreado. No fundo, nada é mais importante que o status. E o que melhor que o consumo para atingir o status? Partindo do status como ex-libris da sociedade ideal, o importante começa a ser a roupa que vão vestir, as marcas que exibem num “corpo-vitrina”, os carros que têm e a veia social, esta última altamente selectiva que inclui apenas grandes nomes.
Vivendo de aparências e ilusões, tornam-se escravos da moda. Há que seguir sempre as últimas tendências e quanto mais caros forem os artigos desejados, menos serão as possibilidades de ver alguém com o mesmo, ao nosso lado.
O mundo chegou a um estado de perdição de tal forma assustador, que ócio e dinheiro são uma combinação explosiva de futilidade. Se trabalhar sempre foi motivo de horna, para alguns o “ganha-pão” e fonte de subsistência, cada vez mais o trabalho é para “os pobres”. O tempo é tão curto que deve ser aproveitado para relaxar, viajar, ver montras e contemplar o nada.
Depois há aqueles que vivem de aparências sem terem como. Recorrem aos créditos que nos invadem a televisão diariamente e assim, podem ir de férias para um destino mais agradável que o da vizinha da frente.
Pobres meninos ricos que ingressam neste meio como consequência da educação, daqueles casamentos estrategicamente felizes (a filha do padeiro que casa com o dono da empresa de distribuição). Que criancinhas poderão sair daqui? Crianças completamente ostentadas, devido ao status da mãe. Jovens que mais tarde deixam de estudar, porque o mundo é muito grande para o conhecer no seu todo e há tanta loja nova para visitar que é impossível conciliar com os estudos. Adultos que chegam a discotecas e compram o porteiro para não terem de estar na fila muito tempo e pedem para vigiar o carro, que está em 2ª fila à porta. A melhor camisa, umas calças caríssimas compradas especialmente para essa noite e umas sapatilhas que pelo preço deveriam de ter asas... fazem parte do status pretendido para o dia.
Meninos ricos que desconhecem a desgraça que nos rodeia no mundo, pessoas que não dão valor a nada. Apenas ao “comprável”.
No dia seguinte? Há muitas lojas abertas para não ter de repetir a toillette.
E valores como a solidariedade, amizade, fidelidade e confiança? Ainda existe?
Pobres meninos ricos, que não sabem o que fazem.